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terça-feira, junho 14, 2011

Adeus Baía

Foto: António Rilo

Chego a casa e abro a caixa de email no portátil. Recebo mais umas missivas das que convocam a carne e essencialmente os músculos em acrobacias rectas. Sorrio e cedo à tentação de soltar um impropério elogioso ao remetente. Percebo depois que a série de epístolas atentatórias à moral e aos bons costumes, consideradas, quem sabe, talvez pecado numa qualquer religião, não são mais do que uma ironia. Conheci-te há uns poucos anos quando o vigor ainda te acercava o coração, depois de uma partida mal pregada pelo destino que ontem te levou em desforra pela majestosa derrota que lhe tinhas empregue.

Quando pela primeira vez te vi, moço sentado numa secretária ao lado da tua, achei-te um tipo maníaco com uma série de taras desenvolvidas por várias coisas pelas quais vale a pena ser doído, uma fonte inesgotável de impropérios erguidos a essas taras, grande atirador de piadas e anedotas e tudo que se imagine que anime inesgotavelmente o mundo em boa companhia. Achei-me burro. À medida que cada vez menos te via, fui percebendo que afinal toda a essa palavra fácil que tinhas, e mesmo a credulidade, faziam-te genuíno.


Talvez há dois anos, na véspera de Natal, quis ir, não sei bem porquê, a um centro comercial. Achei que precisava de comprar mais oferendas para juntar ao saco que já estava cheio. Não comprei nada e acabei por sair farto da azáfama do Natal Comercial. Achei-me burro. E num ápice esbarrei-me contigo na porta de saída, sozinho. Falaste-me, robusto, da enorme tristeza e quiçá revolta que tinhas no caminho que o teu velho jornal levava e da vida que querias levar sem trabalhos, sem preocupações e com saúde. Falamos talvez uma hora sem arredar pé. Estava a família na mesa e desejei-te Bom Natal.


Vi-te depois, pontualmente, numa ou noutra conferência onde tinhas sempre amigos. Tinhas sempre amigos em qualquer parte …e tens. Sempre vigoroso, risonho e a tentar – com a vontade e credulidade que te era característica - foder o Mundo enquanto é tempo. E foder, leia-se, matar a tristeza de dezenas, deixar os colegas com as calças na mão de tanto rir, rasgar a vida em plena diversão e abraçar o Mundo com dois braços bem longos. Tudo abraçavas. Lembro-me das tuas partidas afoitas, dos jornais que levavas e trazias, das câmaras fotográficas a que perdias o jeito, do computador não obedecer ao que simplesmente querias sem dar as ordens em linguagem informática. Lembro-me de tudo e tão pouco. Acompanhei o teu adeus aos jornais, sem na altura perceber bem quem eras. E eras – e és – um tipo banal e genuíno que não mereceria tão pouco uma monumental prosa, não fosse o mundo estar a ficar sem tipos como tu, genuínos animais em extinção.


Se há algo que eras é genuíno, puro, sem misturas…tu próprio e com toda a legitimidade. Tinhas agora direito ao teu espaço, às tuas coisas, às tuas fotografias e à tranquilidade de vários anos teus.


Soube ontem que te foste embora. Queria-te ter dito camarada que eras Grande…e se me estiveres a ler quero que saibas que eras, na tua apenas aparente ingenuidade, um dos mais alegres e genuínos seres que conheci. Tenho hoje a certeza que o Céu – para quem acredite – é agora, contigo, um local muito mais divertido a conhecer.


Até sempre Baía Reis!

terça-feira, maio 18, 2010

Casamento Gay: "Cavaco dá o Nó"


Depois da "Bentania" do Primeiro de Janeiro chega o Nó do Metro. Não sei onde está a tentar chegar o "jornalismo" cá desta praça lusa, mas de certo que não é ao rigor e à sobriedade da verdade.

P,S,: Insultar instituições de soberania é um crime público e o Presidente da República é uma "instituição" consagrada na Constituição da República Portuguesa. Cavaco não deu o nó, tão só aprovou o diploma que permite o casamento homossexual. Aliás o diploma já vinha da Assembleia da República. Porque não colocar em primeira página. "Deputados dão o nó?".

domingo, abril 04, 2010

Um café sem Letras


Há quase uma dor. As velhas palavras num jornal escrito a chumbo saltam de um fulgor que já não se usa. Fazem velhas manchas num escrito que é de novidades velho no tempo. Soltam-se os nomes assinados no topo das peças vertidas a retalho, como que percebidas pelos dedos dos autores. Escritores, que, ávidos, teclaram como feiticeiros a sorver a vida de pessoas reais, personagens de uma vida que se tornou estória de um diário.

Há quase uma mágoa. Perceber que o som se faz silêncio quando não se ouvem os passos e as piadas de um velho que para o chumbo e para a vida sempre foi jovem. O branco das paredes pintadas a secretárias - maquinas de escrever, computadores, impressoras, telefones frenéticos e apontamentos sonoros - fez-se gélido e congelou o cravo que no tempo era a liberdade. Parece que o café não é mais o catalisador de uma manhã ainda a acordar e que o whisky se desfez numa garrafa vazia. Uma cadeira azul vazia é como o céu sem nuvens, perfeito e sem as manchas da vida, pecados e nódoas que o destino sorve como um glutão endeusado em costumes e pessoas.

Há um esgar de saudade que se perde num esvoaçar solitário e incauto. Uma mesa em que pairaram as estórias de vidas e passagens de luta não mais o será sem o escrivão genial. A caneta não tinge o papel sem o jeito do artista que em música fazia as palavras das histórias de ninguém. No quadro das memórias e dos recibos de momentos, cai a penumbra das dádivas do tempo. Uma fotografia roubada é como a imagem de uma alma num delicioso segundo sem preço. Um riso de anedota, um balbuciar de atraso à hora da escrita é como uma pecado fatal que, de irreverente e sem tempo, se cristalizou nos confins da mente do mestre.

Queria dizer-te que a cadeira está fria, sem calor possível que reconheça num espaço traçado por múltiplos sapatos. Queria explicar-te que o teclado não mais deixou escrever as palavras que vertias como um pianista de jazz que sobremaneira morre a cada frase que toca e flui em músicas que se soltam. Melodias juntas que contam momentos pescados do anzol surpresa que surgem de uma luz que não se percebe, mas se deixa entrar no livro dos mestres.

A máquina de escrever morreu há uma década. Há duas ficou sem tinta e ninguém mais a tocou. Queria mostrar-te o que todos os dias descubro e perguntar-te o que nem todos os dias sei. Queria a tua irritação, os teus inimagináveis horizontes humanos e a conservadora abertura de ideais e ideias modernas. Queria saber todos os dias o que é ser repórter, sem me achar a questionar a razão pela qual a moeda faz de um contador de histórias um insignificante e um solitário caminhante da noite.

Um país que não se lê e não sorve o tempo é um país que não vive nas palavras do âmago dos seus dias e na borra do café do manhã seguinte.

segunda-feira, março 29, 2010

"Jornalismo Adágio" - A nova moda de iogurte a Metro com prazo de validade

Dei de caras com este Metro quando hoje viajava de metro. É daquelas manchetes que não tendo história, tem estórias proverbiais.

domingo, outubro 25, 2009

Quando o novo jornalismo mata e o velho jornalista já morreu


Desde finais da década de 80, início da de 90 que a lógica financeira passou a imperar nas empresas. A meta principal é a elevada rentabilidade. Para reduzir os custos, cortou-se no número de empregados e nos salários, deslocalizaram-se serviços e standartizaram-se os procedimentos. A introdução da gestão por objectivos gerou enorme competitividade, quebra das relações, programas de mobilidade e de reconversão profissional. Os problemas de stresse e de depressão ligados ao trabalho atingiram níveis nunca antes conhecidos.

Resposta à pergunta "O que está na origem da onda de suicídios associados a stress laboral em França"? Em Entrevista a Paul Moreira, jornalista e co-autor do livro "travailler à en mourir" sobre suicídios por stress laboral.

Há poucos dias, dizia-me um "velho jornalista" que já não existem jornalista, que agora são todos "conteúdista", produtores de conteúdo pretendia ele dizer com uma expressão cómica que resume o drama da profissão. Hoje quase não se escrevem nem se dão notícias, hoje fazem-se histórias sempre bem recheadas dia após dia pelo contar de episódios que alimenta mas audiências e vendas de jornais. Quem nunca ouviu a expressão da moda "temos de ter alguma coisa sobre isso"?... mesmo que "isso" seja uma história que nasceu há meses e morreu há anos, mesmo antes de ter tido algum interesse jornalístico a bem da comunidade das vendas em banca.

Triste história que o mundo hoje conta do jornalismo, aquele que antes contava as histórias do mundo. Há um vampirismo incessante onde o dinheiro é sangue, a parte de alguns projectos que sem descurar o negócio conservam algum respeito pelo contar de histórias. E nisto embarcam muito "bons" jornalistas aliciados a bom peso de euros ou dólares. Numa dinâmica de notas onde os milhares são tantos que se esquecem dos princípios mais básicos das coisas que começaram por almejar fazer quando eram simples estagiários ou nem isso... Muitos que embarcam no assédio laboral diários dos colegas que transforma os dias num inferno.

Mas o Inferno de uns, dos que nunca lá quiseram bater à porta, dura um dia. Os que o provocam com eles se arranjam quando o palácio vermelho soltar o animal bem delgado e cornudo...esse paraíso dura uma eternidade.

quinta-feira, abril 09, 2009

Jornalistas: "Todo o mundo vai um circo"



Todos menos eu

Por outras Palavras

"Começo a ficar inquieto. Há 40 anos a escrever em jornais e nunca ninguém me processou. É uma nódoa no meu currículo e, nos tempos que correm - em que qualquer estagiário, mal tira o casaco e se senta pela primeira vez à secretária, já está a ser processado e com termo de identidade e residência - uma discriminação afrontosa e desprestigiante.
Os outros jornalistas olham-me de soslaio e (ou será impressão minha?) mudam de assunto quando me aproximo. Mesmo agora que, contra minha vontade, tanto escrevo sobre política e susceptibilidades afins, pois que, chamando em meu socorro por Santa Szymborska, "a época é política" e "o que dizes tem ressonância,/ o que calas tem peso/de uma forma ou outra - político./ Mesmo caminhando contra o vento/ dás passos políticos/ sobre solo político", continuo inexplicavelmente por processar e nenhum dos políticos meus conhecidos cortou comigo. Como na canção de Maria Bethânia, "todo o mundo vai ao circo / menos eu, menos eu" e "fico de fora escutando a gargalhada". Pondero por isso, em defesa do meu bom nome profissional, passar a processar quem não me processar."

Manuel António Pina

Sem olhar de soslaio para o artigo de opinião publicado por Manuel António Pina no JN, é preciso diferenciar os vários ratos na barcança antes que saltem borda fora. Não julgo ser necessário afogar todos de uma só vez. Até porque há aqueles que coleccionam processos no âmbito dos seus artigos inevitalmente relacionados com a área da justiça e da polícia e outros que coleccionam (vendem) notícias (será textos vomitados?) sem olhar a meios e a...processos.
Há, portanto, jornalistas e...atiradores furtivos, quem sabe, mercenários. O jornalismo de investigação em Portugal quase não existe, mas verifica-se pontualmente, graças a uns poucos teimosos que vão resistindo à pressão do tempo. Os jornais querem tudo..já, imediatamente, uns quantos caracteres para preencher um espaço em branco. É normal que um jornalista que escreva algo sobre um crime venha mais tarde a ser inquirido pelas autoridades e, por consequência, ficar com termo de indentidade e residência, porquanto é condição necessária para ficar com estatuto de arguido e ser ouvido...se quiser falar.

Agora, como citou, é verdade que todo o mundo vai um circo. Cada um tenta fornicar (leia-se competir, mas as vezes o termo não chega) o próximo e nessa demanda acabam por dar como verdades o que não era bem certo...a invenção tem um custo, chama-se "Processo". Eu já pousei o meu casaco..

segunda-feira, dezembro 22, 2008

A cor da verdade



Num momento em que o jornalismo - em Portugal e não só, mas especialmente - é cada vez mais difícil e muitos se "vendem" é bom relembrar um bom filme.

"O informador" retrata a dura realidade de conseguir fazer sair uma notícia numa sociedade impregnada e bloqueada pelo poder da indústria tabaqueira. É um filme de diálogo entre a vida e a morte que baseado na história verídica de uma fonte - Jeffrey Wigand -que fez história nos media. É aliás o último desafio que o jornalista aceitou, dedicando-se depois ao ensino universitário.

quarta-feira, outubro 08, 2008

O dinheiro é que manda



"O maior perigo para a liberdade e o pluralismo de informação e de opinião não vem do poder político mas do económico"

Vital Moreira, in Público

quinta-feira, janeiro 24, 2008

As Palavras dos outros


As vezes faço-me pensar que deserto sou eu nos dias que me teimam. Entre o acordar e o pôr-do-sol, uma agonia de rotina sem fim em que navego entre as cidades de histórias, as palavras dos outros e o meu papel tingido por uma caneta apressada. Não sei se entre a acalmia dos breves segundos extintos e raros desses e destes dias – que no fim são todos uma amálgama das mesmas horas – ganho uma qualquer função na fusão de mundos ou se entrelaço os estranhos a quem lanço primeiras palavras tímidas e avulsas, ora ingénuas ora provocatórias.

E assim, sem fluir ao certo na minha mente do lugar que ocupo no centro das pessoas com as suas máscaras, vou caminhando todos os dias para o mesmo sítio de onde saio para lhes falar, sem dor nem cansaço. Escrevo porque as palavras que remeto contribuem para o meu projecto de alimentação diária. Mas a razão pela qual enceto os passos das palavras é outro. É que aquele que ama as palavras deixadas num qualquer papel não é mais do que o que escreve, nem tão só o que as palavras dos outros o deixam ser.

segunda-feira, janeiro 07, 2008

JORNALISMO SÉRIO


Dois meninos estavam a sair do Estádio de Alvalade, quando um deles é atacado por um cão da raça Rottweiler. O outro menino agarra imediatamente num tubo de metal e dá com ele na cabeça do animal matando-o, permitindo assim que o amigo escape apenas com alguns arranhões. Ao ver a cena, um jornalista que passava pelo local correu para ser o primeiro a cobrir o acontecimento e escreveu no seu caderninho:

"Jovem verde e branco salva amigo do ataque de um cão."

- Mas eu não sou do Sporting - disse o menino.

E então, o repórter corrige para:

"Bravo pequeno herói Benfiquista salva amigo das garras de animal feroz"


- Mas eu também não sou benfiquista - disse o menino novamente.

- Desculpa outra vez, apenas pensei que como estamos em Lisboa e não
és verde e branco, deverias ser benfiquista. Afinal, de que equipa és tu?

- Sou Portista.

E o repórter volta a escrever no seu caderninho:


"Jovem delinquente portista assassina brutalmente animal doméstico indefeso"