quinta-feira, agosto 27, 2009

Ninguém pára o FC Porto...nem os repórteres atropelados


Esta história tem um je ne se qua de Despe e Siga, ou Soma e Segue...talvez Atropela e Anda, quiça Foge com o Prego a Fundo. Primeiro, a declaração de intenções: sou portista. Segundo, o atestado médico: não sou cego.

Na terça-feira, o julgamento que opõe o Sr. Jorge Nuno Pinto da Costa e a dona Carolina Salgado - entre outros parentes avulsos, nos quais se conta o motorista do "Sr. Presidente", Afonso Ribeiro - ficou marcado por mais um episódio triste. Daqueles que já são a tradição, como que recalcada, destes encontros e desencontros de amor e justiça. Se bem que, desta vez, foi uma tradição "atropelada".

À saída do Tribunal de São João Novo, no Porto, e já com Pinto da Costa, o assessor de imprensa e uma advogada no carro (a carroça ia cheia), Afonso resolve levar um fotógrafo pelo ar. Dizem que a atmosfera estava recheada de sal nesse dia e o astuto motorista com aspirações a cientista -não era a segurança? - resolveu experimentar a lei da gravidade. Não querendo fornecer o próprio coiro, para a manifesta experiência biólogo-aeronáutica, ávido empacotou o fotojornalista do JN, para uma benemérita oferenda aos Deuses em tamanho real...e humano.

O repórter fotografava a saída de Carolina, ladeada pela advogada e por um rebanho de polícias, quando se imaginou apertado pelo carro do Sr. Presidente. Não bastasse o sonho, surgiu a realidade tão pura e tão dura quanto a lateral e o retrovisor do carro de luxo. Uma bela pancada depois e, por pouco, quase viu diminuído o universo dos fotojornalistas deste belo quadrado lusitano. Afinal, menos um pé....que podia ter sido uma cabeça debaixo do carro. Sorte, os Deuses estarem virados para aquele lado, a bufar que nem loucos. Seria a Nortada?

O bonacheirão e bom polícia ávido por apanhar os miliantes condutores e pseudo-condutores - que não lograram parar - corre rua abaixo e sopra no apito ao mesmo tempo que bate desesperadamente no carro mandando-o parar. Não interessa para aqui - ou talvez interesse - a PSP havia depois de dizer que afinal a ordem não foi explicita. O chefe devia ter sacado do cacete e partido um dos vidros à escolha na sua roda da sorte pessoal. Depois queria ver quem ousava dizer que não tinha sido bem explicito, quem sabe até pornográfico na ordem. "Polícia sadomaso parte vidro de Pinto da Costa e apanha o motorista que atropelou jornalista e quase fugiu não fosse a ordem de paragem explicita"?

Adiante, um dia depois do encobrimento institucional, a PSP haveria de dar o dito por não dito dizendo que afinal a ordem teria sido bem percebida. O FC Porto defende que Afonso, nem nenhum dos ocupantes se apercebeu do atropelamento de um tipo com uma máquina e de lhe passar por cima do membro inferior com cinco grandes e valentes dedos. Seria um turista japonês? O mesmo clube voltava à carga noutra informação a dizer que todas as notícias sobre o (alegado) atropelamento eram tentativas de intoxicação pública - eu cá pus a máscara anti vespas e abelhas e mesmo assim a coisa entrou-me pelos olhos - e que afinal os repórteres é que atropelam o civismo e as leis da sinalética. Boa, boa escolha de palavras!

Portanto, o tipo que ficou esticado é que atropelou algo ou alguém. É identifica-lo e leva-lo à justiça. Eu defendo a prisão preventiva imediata e eterna desse grande criminoso que trabalha num jornal e ousa informar o mundo através de imagens e que para isso se atreveu a pegar numa máquina fotográfica. Ai o gajo!!!

À parte o humor, isto tudo aconteceu sem grande margem para dúvidas num país democrático onde os discursos inflamados dos que defendem os oprimidos e, neste caso, feridos são vistos como enviesados. Isto tudo à porta de um tribunal ( a casa máxima da justiça) recheado de polícias ( o braço-mor da prevenção).

E assim vai o país que não morre, mas dorme torpe às mãos de políticos que esperam o seu merecido lugar numa caderneta de cromos.

sexta-feira, junho 26, 2009

Michael Jackson: o Rei negro da Pop branca


Tinha 50 anos, mas a idade parecia nunca ter passado por ele. Antes um devaneio de bizarrias que o extinguiram do fogo fátuo das super estrelas da musica mundial - que os anos 80 bem souberam criar - e onde sempre mereceu estar. Deixou-nos branco, apesar da vida o ter erguido negro em passos de arte no palco.

Michael Jackson não era um artista, mas antes um personificar universal da arte individual que semeou qual mágico na música. Aproveitou bem - talvez sem nunca ter percebido - o mistério de uma época onde a voz era o elogio supremo. Nasceu como um voz limpida, delicada...às vezes demasiado meiga para um homem que chegou aos 50. E ainda agora dizer homem soa grotesco, desfasado. Ainda mais quando se ouve, nítida, a sua voz.

Há doze anos que não se mostrava num concerto só dele. A pele tinha-se feito mais cálida - não se sabe se por doença se de propósito - e o músico deixou-se envenenar em bizarrias sem sentido. Michael era contudo, e será sempre, um estrela cadente da Pop, senão o seu rei supremo como os jornais se apressam a vaticinar. A loucura desmedida e obscura da sua última década não matou o música, o actor de passos subtis e impressionamente perfeitos em palco. Nunca ninguém conseguirá matar o cantor, nem ele próprio, apesar de se ter esforçado terrivelmente.

Escândalos de pedofilia, de bizarria e de má gestão de finanças... "I'm gone make a change for once in my life".... o verso da subtil melodia provoca o mais animalesco dos homens...Michael morreu criança. Talvez, quem sabe, sempre quis mudar o mundo, começando por ele. Escolheu a mais dura tarefa: mudar-se, por completo, para um corpo estranho, mantendo o nome e a magia do ser que lhe antecedeu em berço. Começou cedo a mostrar os dotes, militarmente cultivados pelo pai. Alcançou a ribalta, o estrelato, a fama e engoliu o mundo em conquista musical....tudo isso não chegava, queria ser branco...

Será o mais racista dos homens negros? A experiência ensina que talvez fosse o mais frágil de todos nós...um igual ser fraco. O Rei negro foi criado pela Pop branca...e de imediato quis ser igual aos seus súbditos, aproveitando para se esquivar em cor ao pai...que terá odiado tando quanto amou. A adolescência que cedo perdeu, conquistou tarde, no final da vida, num excentricidade alienigena. Quem pode dizer que não tinha direito a ela, senão desde sempre, pelo menos agora? A bizarria e o descuido, o gesto menos cuidado, a palavra menos medida tinham um nome: adolescência. Finalmente o menino, homem forçado a crescer desde tenra idade.

E por isso, o mundo esquecerá o bizarro da vida de Michael Jackson. Para sempre ficará Billie Jean, Bad e Thriller.... Michael Jackson morreu ontem a tentar voltar ao palco. Com 50 anos era o mesmo miúdo ingénuo, mas enérgico que em 1971 se iluminou nos Jackson 5.

sábado, maio 09, 2009

i Num instante tudo Muda



....i Num instante tudo muda...

Um pequeno e assaz esboçar de dentes no fim é sempre bem melhor do que uma tremenda gargalhada inicial que acaba por morrer na praia.

quinta-feira, abril 09, 2009

Jornalistas: "Todo o mundo vai um circo"



Todos menos eu

Por outras Palavras

"Começo a ficar inquieto. Há 40 anos a escrever em jornais e nunca ninguém me processou. É uma nódoa no meu currículo e, nos tempos que correm - em que qualquer estagiário, mal tira o casaco e se senta pela primeira vez à secretária, já está a ser processado e com termo de identidade e residência - uma discriminação afrontosa e desprestigiante.
Os outros jornalistas olham-me de soslaio e (ou será impressão minha?) mudam de assunto quando me aproximo. Mesmo agora que, contra minha vontade, tanto escrevo sobre política e susceptibilidades afins, pois que, chamando em meu socorro por Santa Szymborska, "a época é política" e "o que dizes tem ressonância,/ o que calas tem peso/de uma forma ou outra - político./ Mesmo caminhando contra o vento/ dás passos políticos/ sobre solo político", continuo inexplicavelmente por processar e nenhum dos políticos meus conhecidos cortou comigo. Como na canção de Maria Bethânia, "todo o mundo vai ao circo / menos eu, menos eu" e "fico de fora escutando a gargalhada". Pondero por isso, em defesa do meu bom nome profissional, passar a processar quem não me processar."

Manuel António Pina

Sem olhar de soslaio para o artigo de opinião publicado por Manuel António Pina no JN, é preciso diferenciar os vários ratos na barcança antes que saltem borda fora. Não julgo ser necessário afogar todos de uma só vez. Até porque há aqueles que coleccionam processos no âmbito dos seus artigos inevitalmente relacionados com a área da justiça e da polícia e outros que coleccionam (vendem) notícias (será textos vomitados?) sem olhar a meios e a...processos.
Há, portanto, jornalistas e...atiradores furtivos, quem sabe, mercenários. O jornalismo de investigação em Portugal quase não existe, mas verifica-se pontualmente, graças a uns poucos teimosos que vão resistindo à pressão do tempo. Os jornais querem tudo..já, imediatamente, uns quantos caracteres para preencher um espaço em branco. É normal que um jornalista que escreva algo sobre um crime venha mais tarde a ser inquirido pelas autoridades e, por consequência, ficar com termo de indentidade e residência, porquanto é condição necessária para ficar com estatuto de arguido e ser ouvido...se quiser falar.

Agora, como citou, é verdade que todo o mundo vai um circo. Cada um tenta fornicar (leia-se competir, mas as vezes o termo não chega) o próximo e nessa demanda acabam por dar como verdades o que não era bem certo...a invenção tem um custo, chama-se "Processo". Eu já pousei o meu casaco..

Gran Torino: Eastwood faz parte dos deuses de Hollywood

O filme Gran Torino é uma das obras primas de Clint Eastwood. A última em que entra como actor. É, sem dúvida, um dos melhores, senão o melhor filme que vi nos últimos tempos. Na pele de veterano de guerra da Coreia, a personagem de Eastwood refaz a vida - eu diria vê quem realmente é - com os seus novos vizinhos, hmongs, que mais se parecem com os "chinocas" que matou sem dó na guerra. Foi essa mesma guerra que o marcou e que o envolveu numa capa de pseudo insensibilidade que é afinal um cicatriz em alguém que cristalizou os seus sentimentos para sempre.

Gran Torino é a subida ao cume de Eastwood, quem sabe a sua verdadeira obra prima. Uma película que tudo tem de norte-americano, mas que nada tem da prosaica e já mais que batida forma de contar histórias à velha maneira de hollywood. Não é um filme de histerismo ou de acção popularucha. Desenrola uma história - com grandes lições sobre princípios já esquecidos, mas basilares - ora séria ora comediante ...com belas tiradas de humor seco, incisivo e inteligente.

Gran Torino é um filme que nos dá a volta...Eastwood é um actor de sublime trato...um homem que soube envelhecer nos ecrans. No fim, a personagem de Eastwood morre numa entrega total e em nome da amizade e de princípios. Poucos o farão hoje...

Não é apenas a personagem que parece "morrer". Com o último filme em que contracena, Eastwood diz adeus às câmaras, sem fogo de artificio e champagne...cantando a sóbria música Grand Torino..

Há poucas pessoas que conseguem chegar ao "cume da vida" respeitando sempre cada degrau, sem histeria e com a descrição apropriada. É essa caminhada e essa sobriedade que, porventura, despontam uma lágrima aos primeiros acordes da melodia cantarolada por Eastwood..