"É menos um comunista". Foi assim que soube que José Saramago hoje morreu. Pela voz quase opinião do pobre espírito de um empregado de mesa. Teve, pelo menos, o cuidado de avisar que podia estar a ferir susceptibilidades. E feriu, a minha de ser português e de admirar quem sonha e consegue ser maior que o país que sempre teima em capturar o génio e a vontade dos seus.
Nunca li um livro de Saramago. O interesse, turvado pelas críticas de uns quantos que dizem que escreve mal, menos bem ou não usa virgulas, nunca chegou para comprar um livro. Hoje decidi que o vou fazer. Mea Culpa. Há alguns meses, em plena igreja ouvi um padre aparentemente sábio a criticar "Caim", o último romance de Saramago. Perante a sacanice do discípulo de Deus, riu-se a plateia do Senhor, em gargalhadas tantas que fui assomado pela gigante dúvida de estar ou não numa igreja. Percebo a pequena vingança perpetrada. Saramago sempre teve o dom de fazer pensar as pessoas. E em certos quadrantes, seja ele o da Ciência ou o da Religião, há muitos que não querem que o Povo pense.
Quando soube da morte do prémio Nobel da Literatura desfolhei notícias e entrevistas avulsas por todos os jornais que se apressaram a homenagear Saramago com manchetes imediatas na Internet. Nunca li nenhuma obra sua, mas não consegui evitar cair no lugar comum daquele que lamentou não o ter conhecido ou ouvir mais cedo as suas palavras. Para um comunista convicto, como ele o era e talvez ainda seja - eu não tenho militância - já estaria a ser demasiado penoso o rumo levado por este país de políticos sem moral. Não é por isso inocente o seu exilio em Lanzarote, nas Ilhas Canárias.
Numa entrevista ao jornalista Adelino Gomes do Jornal Público em 2006, Saramago respondia assim sobre o que se pode fazer para mudar este País:
"O que fazer? Temos um cerimonial democrático cada vez mais falto de vergonha: campanhas eleitorais que custam rios de dinheiro, subsidiadas muitas vezes não se sabe por quem ou demasiado se sabe por quem; promessas que se sabe de antemão não serão cumpridas; processos cosméticos do género de termos um Governo de um partido socialista mas não um Governo socialista. Porque, aqui e em qualquer parte do Mundo, o partido no Governo vai poder chamar-se o que quiser porque vai ter que fazer exactamente a mesma política. Uma comédia de enganos. Não servimos para nada mais senão para homologar coisas que não têm nada que ver connosco porque não podemos influir nelas. Aristóteles, na Política, dizia que, num Governo democrático bem entendido, o governo da Polis, os povos deviam estar em maioria, pois são a maioria".
Hoje estou como um grande amigo jornalista. Há minutos dizia que, perante a morte de Saramago - que decerto terá tido as suas grandes falhas e defeitos quiçá segredos penosos e hereges - só pode berrar e chorar. Não há quem possa negar a grande sinceridade liquida como via a realidade das coisas e a verdade com que a expressava sem medo dos poderosos. Por isso, não há quem possa negar que sempre ousou pensar e bater-se pela liberdade. E quem o faz, mau antes ou bom depois, seja no passado ou no futuro, merece sempre o reconhecido do seu mérito.
Fica o vídeo de um homem desassombrado.
Nunca li um livro de Saramago. O interesse, turvado pelas críticas de uns quantos que dizem que escreve mal, menos bem ou não usa virgulas, nunca chegou para comprar um livro. Hoje decidi que o vou fazer. Mea Culpa. Há alguns meses, em plena igreja ouvi um padre aparentemente sábio a criticar "Caim", o último romance de Saramago. Perante a sacanice do discípulo de Deus, riu-se a plateia do Senhor, em gargalhadas tantas que fui assomado pela gigante dúvida de estar ou não numa igreja. Percebo a pequena vingança perpetrada. Saramago sempre teve o dom de fazer pensar as pessoas. E em certos quadrantes, seja ele o da Ciência ou o da Religião, há muitos que não querem que o Povo pense.
Quando soube da morte do prémio Nobel da Literatura desfolhei notícias e entrevistas avulsas por todos os jornais que se apressaram a homenagear Saramago com manchetes imediatas na Internet. Nunca li nenhuma obra sua, mas não consegui evitar cair no lugar comum daquele que lamentou não o ter conhecido ou ouvir mais cedo as suas palavras. Para um comunista convicto, como ele o era e talvez ainda seja - eu não tenho militância - já estaria a ser demasiado penoso o rumo levado por este país de políticos sem moral. Não é por isso inocente o seu exilio em Lanzarote, nas Ilhas Canárias.
Numa entrevista ao jornalista Adelino Gomes do Jornal Público em 2006, Saramago respondia assim sobre o que se pode fazer para mudar este País:
"O que fazer? Temos um cerimonial democrático cada vez mais falto de vergonha: campanhas eleitorais que custam rios de dinheiro, subsidiadas muitas vezes não se sabe por quem ou demasiado se sabe por quem; promessas que se sabe de antemão não serão cumpridas; processos cosméticos do género de termos um Governo de um partido socialista mas não um Governo socialista. Porque, aqui e em qualquer parte do Mundo, o partido no Governo vai poder chamar-se o que quiser porque vai ter que fazer exactamente a mesma política. Uma comédia de enganos. Não servimos para nada mais senão para homologar coisas que não têm nada que ver connosco porque não podemos influir nelas. Aristóteles, na Política, dizia que, num Governo democrático bem entendido, o governo da Polis, os povos deviam estar em maioria, pois são a maioria".
Hoje estou como um grande amigo jornalista. Há minutos dizia que, perante a morte de Saramago - que decerto terá tido as suas grandes falhas e defeitos quiçá segredos penosos e hereges - só pode berrar e chorar. Não há quem possa negar a grande sinceridade liquida como via a realidade das coisas e a verdade com que a expressava sem medo dos poderosos. Por isso, não há quem possa negar que sempre ousou pensar e bater-se pela liberdade. E quem o faz, mau antes ou bom depois, seja no passado ou no futuro, merece sempre o reconhecido do seu mérito.
Fica o vídeo de um homem desassombrado.

